Os três estágios da salvação
Leia Filipenses 2.12
Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor.
No momento em que cremos no perdão do sangue e confessamos Jesus como Senhor, somos salvos eternamente.
Isso é um fato. No entanto, Paulo diz que essa salvação precisa ser desenvolvida. O que isso significa? Creio que essa é uma questão importante e, para respondê-la, vou usar uma alegoria do Velho Testamento.
De acordo com a revelação de toda a Bíblia, a salvação de Deus se apresenta em três estágios. Trata-se de um processo gradual.
1. Na história do povo de Israel
A salvação que Deus pretendia que os filhos de Israel participassem estava relacionada a três lugares: o Egito, do qual eles foram libertados; o deserto, no qual eles peregrinaram; e Canaã, onde eles entraram. A história deles nesses três lugares expressa os três estágios da salvação plena de Deus. Os filhos de Israel não participaram da salvação completa de Deus em um único lugar.
a. Salvação do Egito
No Egito, os israelitas participaram do primeiro estágio da salvação. Na ocasião da Páscoa, eles experimentaram o sangue redentor do cordeiro (Êx 12.7), comeram do cordeiro (Êx 12.8) e assim foram salvos do julgamento justo de Deus. Quando saíram do Egito e cruzaram o Mar Vermelho, eles foram salvos da escravidão e da tirania de Faraó.
Depois de cruzar o Mar Vermelho, eles eram um povo livre. Nesse sentido, todos estavam salvos. Ninguém pode negar que eles foram salvos do julgamento de Deus e do jugo, tirania e escravidão no Egito. Entretanto, eles tinham participado apenas de um terço da salvação plena de Deus. Embora tivessem sido salvos do julgamento de Deus e da escravidão de Faraó, eles nada sabiam do propósito eterno de Deus.
O tabernáculo ainda não fora erigido, e o governo de Deus ainda não fora estabelecido na terra. Embora os filhos de Israel tivessem sido salvos do Egito, eles ainda precisavam experimentar os dois estágios posteriores da salvação de Deus.
b. Salvação do deserto
Depois que os israelitas foram salvos do Egito, onde comeram o cordeiro pascal e o pão sem fermento, eles experimentaram a salvação ao longo do deserto.
Embora tivessem desfrutado de Cristo, tipificado pelo cordeiro no Egito, aquilo era apenas o estágio inicial, o começo. Eles precisavam experimentar mais de Cristo, tipificado pelo maná e pela rocha que fluía água viva. Depois do êxodo do Egito, Deus os levou para um segundo estágio, representado pelo deserto, onde desfrutaram do maná do céu (Êx 16.31,32) e da água que sacia (Êx 17.6).
Por causa da influência dos ensinamentos passados, sempre que ouvimos alguém falar a palavra “deserto”, pensamos nela como algo ruim. Embora deserto não seja uma boa palavra, ela não é totalmente má. Se consultar um mapa, você verá que os filhos de Israel não poderiam ter ido do Egito à terra de Canaã sem passar pelo deserto. O deserto tornou-se algo ruim quando os filhos de Israel não creram para entrar em Canaã.
E por isso peregrinaram nele por cerca de trinta e oito anos. Foi essa perda de tempo que tornou o deserto tão ruim. Se, todavia, eles tivessem cruzado o Mar Vermelho e ido através do deserto diretamente para a boa terra, deserto seria uma palavra boa. O fato de o deserto não ser totalmente ruim é provado pelo fato de os israelitas terem, nele, desfrutado do maná e da água da rocha, ambos tipos de Cristo.
c. Salvação em Canaã
Depois de peregrinar no deserto, os filhos de Israel cruzaram o Rio Jordão e entraram na boa terra de Canaã, o terceiro estágio de sua salvação. Aqui, no terceiro estágio, na boa terra, eles desfrutaram de algo mais que o cordeiro, o pão sem fermento, o maná, e a água — eles desfrutaram da riqueza da terra de Canaã. Embora tenham comido diariamente o maná no deserto por quase quarenta anos, imediatamente após terem entrado na boa terra, cessou o maná e eles começaram a desfrutar dos produtos da terra prometida (Js 5.11-12). O cordeiro pascal, o maná celestial, a água viva e os produtos da boa terra de Canaã são tipos dos diversos aspectos de Cristo. Se os filhos de Israel tivessem apenas sido salvos do Egito, eles jamais teriam provado o maná. Se eles não tivessem entrado na terra de Canaã, jamais teriam desfrutado dos frutos da boa terra.
No terceiro estágio de sua salvação, a salvação em Canaã, os israelitas entraram no descanso (Dt 12.9). Tudo o que eles desfrutaram nos três estágios é para ter a edificação do templo para que Deus pudesse habitar entre os homens na terra. A salvação plena de Deus é para a expressão e o reino de Deus. A plena salvação dos filhos de Israel incluía a redenção pelo cordeiro pascal, o êxodo do Egito, a alimentação com o maná, o beber da água viva da rocha ferida e o participar das riquezas da terra de Canaã. Agora preste atenção no que vou falar. Todos os israelitas compartilharam do cordeiro pascal, do maná celestial e da água viva, mas daqueles que saíram do êxodo do Egito somente Josué e Calebe entraram na terra; todos os demais caíram no deserto (Nm 14.30; 1 Co 10.1-11). Embora todos tivessem sido redimidos, somente dois vencedores, Josué e Calebe, receberam a recompensa da boa terra.
O cordeiro pascal, o maná celestial, a água viva e a boa terra de Canaã, todos são tipos de Cristo. Agora segundo a tipologia do povo de Israel, nem todos os crentes que foram redimidos por Cristo receberão a recompensa, tanto na era da igreja quanto na era do reino vindouro do milênio. Depois de redimidos, precisamos diligentemente buscar a recompensa.
É por isso que o apóstolo Paulo, embora totalmente redimido, ainda estava avançando para o alvo, para que pudesse ganhar Cristo como recompensa
Leia Filipenses 3.10-14
Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.
Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante,
prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.
2. Com os crentes do Novo Testamento
a. Salvação do mundo
Baseado na tipologia da salvação dos filhos de Israel, a salvação no Novo Testamento também tem três estágios.
Primeiramente, experimentamos ser salvos do mundo. Somos justificados pelo sangue de Jesus (Rm 3.22-25) e separados do mundo (Gl 1.4; 6.14).
Leia Romanos 3:22-25
Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos.
Se alguém não fez seu êxodo do mundo, essa pessoa ainda não completou o primeiro estágio de sua salvação. Glória a Deus pela justificação pela fé por meio do sangue de Cristo, mas não podemos continuar no Egito, precisamos ter um êxodo.
Hoje, milhões de cristãos genuínos, que foram justificados pela fé por meio do sangue de Cristo ainda estão no mundo. Eles precisam de um êxodo. Um dos aspectos principais do mundo é a religião. Precisamos sair do sistema religioso e centralizar Cristo e a obra consumada.
b. Salvação através da alma
O segundo estágio da nossa salvação é a salvação da alma, que inclui a santificação (Rm 6.19-22) e a transformação conforme Paulo descreve em Romanos 12:2
Leia Romanos 12:2
E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus
O Novo Testamento revela que somos justificados, santificados e transformados. Tudo isso acontece em nossa alma. Nossa alma, isto é, nosso ser, precisa ser santificada e transformada, cheia da vida de Cristo. O Espírito Santo, presente em nosso espírito, precisa transbordar para a nossa alma.
Em nosso espírito, a unção é permanente, mas, quanto à nossa alma, precisamos ser cheios continuamente.
A transformação não é meramente uma mudança; ela significa ser cheio do Espírito.
A Bíblia usa as palavras “misturar” ou “mesclar” quando fala a respeito de da unção que está em nosso espírito com a alma. Vamos ver o que a sobra fala sobre esta mistura. Vamos para Números.
Leia Números 15:4
Aquele que oferecer a sua oferta ao SENHOR, por oferta de manjares, oferecerá uma décima de flor de farinha misturada com a quarta parte de um him de azeite.
No texto falando da oferta de manjares, vemos que a flor de farinha deveria ser misturada ao azeite. Isso significa que a flor de farinha é transformada, não por mudar-se a si mesma, mas por ter azeite acrescentado a ela.
A flor de farinha representa a humanidade, e o azeite, a divindade.
A intenção de Deus é que a nossa humanidade seja misturada com a sua divindade. Nós somos a flor de farinha, e Ele, o azeite, e juntos somos misturados. Quando a flor de farinha é misturada com o azeite, ambos continuam com a sua própria substância. Nossa vida humana foi misturada com a vida de Deus. Não é uma vida substituída, mas uma vida acrescentada.
A transformação não se trata de correção moral nem de uma mudança de comportamento ético. Transformação significa que fomos purificados pelo sangue e depois fomos cheios com o óleo da unção. Esse enchimento é a expressão da santificação. Nesse estágio, o segundo estágio de nossa salvação, desfrutamos de Cristo como o maná celestial e como a água viva, como o Espírito que dá vida, que provém da rocha fendida, a qual é o próprio Cristo.
Nesse estágio de transformação, desfrutamos de Cristo de uma maneira mais rica. Louvamos ao Senhor porque muitos entre nós têm experimentado a realidade da transformação. Em 2 Coríntios 3.18, lemos:
Leia 2 Coríntios 3:18
E todos nós com o rosto desvendado, contemplando e refletindo como um espelho a glória do Senhor, estamos sendo transformados à mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor Espírito. (2 Co 3.18)
Todos precisamos dessa transformação. Esse é o segundo estágio da nossa salvação.
C. Salvação no espírito
O terceiro estágio de nossa salvação é a salvação no nosso espírito. Todos precisamos sair do deserto e cruzar o rio para desfrutarmos da vida cristã abundante (Rm 8.10; 2 Tm 4.22), na qual devemos viver e andar (Rm 8.4; Gl 5.16-25). No espírito, temos a habitação de Deus.
3. Correspondendo às partes do tabernáculo
a. Experiências no átrio
Uma vez que o tabernáculo e o templo têm três partes, os três estágios da salvação de Deus correspondem às experiências no tabernáculo. Primeiramente, temos as experiências no átrio, onde somos redimidos no altar (Lv 4.7) e lavados na bacia (Êx 30.18-21). O lavar na bacia nos fala de cruzar o mar. Isso corresponde à nossa salvação do mundo.
B. Experiências no Lugar Santo
Depois do átrio, temos as experiências no Lugar Santo, onde somos alimentados com os pães da proposição (Êx 25.30), iluminados pelo candelabro (Êx 25.37) e aceitos por meio do altar do incenso (Êx 30.7). Isso corresponde à transformação da nossa alma.
C. Experiências no Santo dos Santos
Por fim, temos as experiências no Santo dos Santos, onde desfrutamos da presença de Deus (Êx 25.22) e compartilhamos da glória de Deus. Aqui no Santo dos Santos, estamos na casa de Deus. Aqui entramos no descanso. Isso corresponde à salvação em nosso espírito.
4. O problema de não entrar no descanso
O povo de Deus era escravo no Egito sofrendo debaixo da opressão de Faraó. O Egito simboliza o mundo, e Faraó, a satanás. Moisés é levantado como libertador e, por ocasião da última praga, eles deveriam comer o cordeiro da Páscoa dentro da casa, onde os portais haviam sido pintados de sangue pelo lado de fora. Esse é um quadro da salvação.
No outro dia, eles partiram e atravessaram o mar Vermelho, que simboliza o batismo e onde Faraó foi para sempre sepultado. Até esse ponto, temos um quadro da salvação. Mas Deus nos salvou da condenação para nos introduzir na terra da promessa. Ninguém duvida que a saída do Egito com a Páscoa aponta para a salvação, mas, quando falamos de Canaã, as pessoas não têm clareza.
Alguns ensinam que o Rio Jordão é a morte, e a terra prometida, o céu. Essa é uma interpretação equivocada, porque Canaã estava cheia de inimigos, que simbolizam demônios, e no céu não haverá demônios. O autor de Hebreus nos mostra que a terra prometida hoje é o descanso da vida cristã plena e vitoriosa. A promessa de Deus ao povo de Israel era que Ele os libertaria da escravidão e os levaria para uma terra que mana leite e mel. Não é que tem leite e mel, mas flui, mana leite e mel. O Senhor também lhes disse que estava dando a eles grandes e boas cidades, que eles não edificaram; casas cheias de tudo o que é bom; poços abertos, que eles não abriram; vinhais e olivais, que não plantaram. Tudo isso indicando que Deus queria introduzi-los numa obra consumada (Dt 6.10-11).
No entanto, quando o povo de Israel chegou a Cades-Barneia, algo triste aconteceu, eles enviaram espias, os quais constataram que de fato a terra fluía leite e mel, mas também viram que as cidades eram fortificadas e que lá havia gigantes (Nm 13.27-29).
Em vez de confiar na promessa de Deus, o povo preferiu crer no relatório negativo dos dez espias, os quais haviam dito que a terra era habitada por gigantes (Nm 13.31-33).
Embora tivessem sido libertos da escravidão, eles ainda tinham uma mentalidade de escravos. Ao prestarem atenção nos gigantes, eles se encheram de ansiedade, preocupação e medo.
Hebreus 3 nos mostra que os filhos de Israel não foram permitidos entrar na terra porque duvidaram da promessa de Deus. Em outras palavras, eles duvidaram da bondade de Deus. É o mesmo quadro que vemos hoje.
Os crentes nos ouvem pregando e dizem que isso é bom demais para ser verdade. Chegam até mesmo a dizer que Deus não é tão bom quanto afirmamos. O povo não ficou de fora da terra por causa dos seus muitos pecados cometidos no deserto, mas unicamente por causa da incredulidade.
Em Hebreus 3.11, em vez de dizer que eles nunca entrarão na terra, o Senhor diz: “Não entrarão no meu descanso”.
Leia Hebreus 3:8-11
Não endureçais os vossos corações, como na provocação, no dia da tentação no deserto, onde vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, e viram por quarenta anos as minhas obras. Por isto me indignei contra essa geração, e disse: Estes sempre erram em seu coração, e não chegaram a conhecer os meus caminhos. Assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso.
Deus chama a terra prometida de descanso.
Isso significa que o que era uma terra física para Israel no Velho Testamento hoje aponta para a graça e o descanso na Nova Aliança. A terra prometida hoje é o descanso da obra consumada.